Tailgate - o poder de uma mulher



 Se você não sabe o que é Tailgate, vou contar uma história.

Tailgate é um termo que significa estar logo atrás, perseguir de perto, ou algo assim. Mas existe um outro, muito mais divertido, que é a versão americana do "esquenta".

Em algumas universidades norte americanas, como é o caso da Mizzou (University of Missouri), o time de futebol americano é parte essencial da cultura e do espírito comunitário. Por lá, não é incomum que 5 ou até mais gerações da mesma família frequentem a mesma universidade e tenham por ela a mesma paixão que temos com nossos times de futebol. 

Passeando pela universidade em dia de jogo e intrigada com aquela quantidade de barracas por todo lado, tentava entender de uma vez por todas o que era o tal "tailgate" que tanto li nas newsletters de preparação para o Family Weekend. 

Eis o que é Tailgate: as famílias que apoiam o time de futebol chegam de madrugada (nem todos) com todo tipo de apetrechos: tenda, cadeiras, mesas dobráveis, churrasqueiras, coolers, e todo tipo de comida. Alguns só compram no mercado, mas outros levam tudo "homemade". Inclusive encontrei um livro com dicas: "How to tailgate like a pro". Digitei o termo no Google e veio uma enxurrada de informações.

Não pude fuçar muito, pois não é uma exposição, é cada família na sua tenda - a não ser que você seja convidada. As famílias amigas armam as tendas próximas, e começa o esquenta para o jogo. Carne, tacos, cerveja, refri, salgadinhos, pipoca, hot dog... e os "pros" com certeza tinham pink lemonade, chicken salad, potato salad, brownie, tortas elaboradas, drinks diferentes e muito mais (da próxima vou comprar o livro para saber).

Não bastasse a comilança, eles também levam jogos e outras atrações para manter todo mundo ocupado. Passei por uma tenda que devia ter uns 50 tigres de pelúcia, de todos os tipos e tamanhos. O alunos da Mizzou são chamados de Tigers, e o time também. Não é à toa que a música tema deles é Eye of The Tiger, e se o jogo for em casa, Welcome to the Jungle. 

Pois bem... passeando entre as tendas, já que não tinha a minha própria, encompridando os olhos para ver o que eles estavam fazendo, vi que em uma rolou um aniversário, em outra também parecia alguma data especial, e várias tinham dress code. Passei por uma onde todos estavam de branco, e as meninas de vestido branco e botas marrons. 

"Gente, isso aqui tem uma história, um começo", eu pensava. Depois de passar o dia observando a dinâmica do negócio, e de passar por todas aquelas tendas sendo desmontadas no pós jogo e os carros sendo carregados, em sua imensa maioria, pelos maridos, penso que descobri como nasceu o Tailgate, história que passo a contar agora.

Eram 3 amigos: John, Mike e Frank. Jogaram futebol juntos na Universidade e continuaram amigos pela vida. Casaram-se, tiveram filhos e ficaram morando na mesma cidade. Seus filhos cresceram juntos e acabaram na mesma Universidade dos pais, jogando futebol americanos como eles haviam feito antes.
Em dia de jogo os pais estavam lá, na primeira fileira, incentivando e empurrando seus garotos. O time foi crescendo no campeonato, e os pais passaram a ir mais cedo para "se concentrar".  Todo sábado de jogo, às 8 da manhã em ponto John telefonava para Mike e Frank, acordando a casa inteira. Só quem já teve telefone fixo em casa sabe do que estou falando.
Os três, então, se encontravam na porta do estádio ainda antes do almoço, cada um com sua caixinha de cerveja, e sentavam em alguma sombra para esperar o horário de abertura dos portões.

Enquanto isso, Mary Jane, Lucy e Meg, as esposas, ficavam em casa cuidando dos outros filhos, na maioria das vezes nem iam ao jogo. O time ia avançando, e a coisa foi ficando tão emocionante que os três já não se contentavam em assistir aos jogos em casa, e começaram a viajar para assistir todos os jogos.

Mary Jane, esposa de John, era extremamente ciumenta, e sua mente começou a lhe pregar peças, mostrando a ela todas as mulheres de short curto e botas de cowboy rondando seu gato. Não que ele estivesse com essa bola toda, mas hoje em dia sabe como é: mais vale um homem bom do que bonito. A própria MJ refutava os pensamentos, sabendo que John não era esse tipo de pessoa, mas não tinha jeito, a mente não dava sossego. Quando começava a transmissão do jogo, os câmeras pareciam escolher a dedo as beldades que deixavam Mary Jane se sentindo a pior das mulheres.

O sentimento foi silenciosamente ganhando espaço dentro dela, e uma noite, no Clube do Livro que ela tinha com Lucy e Meg, não pôde mais guardar o sentimento, e abriu o coração para as amigas. As duas foram rápidas em dizer que ela estava louca, que os "meninos" não eram desse tipo. No entanto, a semente foi plantada, e não se passou muito tempo até que as três tivessem certeza de que aqueles salafrários, fingidos, sem-vergonha estavam aprontando, e aprontando muito. Bolaram, então, o plano diabólico: tirariam do armário seus shorts e botas empoeirados e chegariam ao estádio causando. Passariam na frente dos bonitões como se nem os conhecessem, só para deixar registrado o que estavam perdendo. Combinaram com alguns garotos (em troca de 5 dólares para cada) para que assobiassem para elas quando estivessem passando em frente aos três patetas. 

Na véspera do dia marcado, Frank encontrou-se com os outros dois em um café onde costumavam ir para combinar o dia seguinte. Conversa vai, conversa vem, ele comentou que Meg andava muito estranha, irritada e num mau humor insuportável. Mike e John disseram que Lucy e Mary Jane estavam como ela. John, muito pragmático, falou: "agora não vai dar tempo. Melhor dormir com a mulher brava mesmo, porque se partir para a DR a gente não chega no jogo. Depois do jogo a gente enfrenta as leoas." Impressionados com tamanha sabedoria, os outros dois concordaram.

Chegou o sábado e o infalível telefonema das oito. Mike achou que as coisas tinham se resolvido sozinhas, pois Lucy estava tranquila e sorridente. Achou que havia algo estranho no sorriso, como se ela estivesse tramando algo, mas um sorriso, qualquer que fosse, já era melhor do que aquele mau humor insuportável da semana.

Frank buzinou e Mike saiu, depois de beijar sua doce Lucy, que ficou na porta acenando até que o carro virasse a esquina. Ao pegarem John, Mary Jane estava com o mesmo sorriso, e também ficou acenando na porta. 

Assim que o carro virou a esquina, Mary Jane ligou para Lucy e Meg: era hora do show. Vestidas, maquiadas, prontas para arrasar e com as crianças sem entender nada, as amigas deixaram suas crias com a mãe de Meg e lá se foram. Deram uma volta de reconhecimento com o carro, e descobriram onde ELES estavam sentados. Estacionaram o mais perto possível e esgueiraram-se até uma distância onde podiam ouvir o que eles falavam. Os contratados para assobiar já estavam a postos.

"E agora, o que a gente faz? Só chega e vai passando, sem mais nem menos?" perguntou Meg.

"Claro que não, vamos aguardar o momento certo. A gente fica por aqui, e quando passar alguém e eles mexerem, é hora da vingança.""

"Mary Jane, você está com sangue nos olhos, hein?" Lucy estava achando graça.

"Ah, tô mesmo. Eles vão ver o que é bom pra tosse!" Das três mulheres, sempre foi MJ a mais intensa, fosse na raiva, na dor ou no amor. Dramática é uma palavra que a descreve bem.

Ficaram por ali sentadas, escondidas, observando. Os homens estavam num papo descontraído, tentando adivinhar quem o técnico ia escalar, comentando o último jogo, elogiando a cerveja geladinha. Depois de uns 5 minutos de espera, 4 garotas vieram caminhando em direção a eles. Passaram e, embora até eles tenham olhado, imediatamente voltaram a conversar não esboçaram qualquer outro sinal em relação às mulheres. 

Não demorou muito e passaram outras. Para essas, as cabeças nem viraram. Nem para as próximas. John, Mike e Frank só estavam mesmo fazendo o que disseram que faziam: curtindo a cerveja e os amigos. 

Mary Jane, até então enraivecida, começou a amolecer. Olhava para os amigos de vida e seu coração derretia. John, o lindo da vida dela, estava lá na maior paz, curtindo seu momento como mais gostava. Prestando atenção, viu que a careca dele estava ficando vermelha, pois os três estavam sentados no sol. E devia estar com dor nas costas, também, pois estavam sentados num banquinho sem nem encosto! E deviam estar mortos de fome, aqueles três cabecinhas de vento mais lindos. Não tinham nem um saquinho de Cheetos por perto!

Sem avisar as demais, MJ saiu do esconderijo e andou decidida até os três, que não sabiam como reagir à presença dela. Opa, e nem das outras duas! Houve aquele momento de silêncio desconfortável, em que todos estão procurando a reação certa. John pensava se devia perguntar que roupa era aquela, mas foi rápido em decidir que era péssima ideia. Mike olhava para Lucy como quem viu um fantasma e Frank deu uma risada nervosa, conseguindo esboçar um "o que você está fazendo aqui, querida? Vocês vieram ver o jogo também?"

Lucy disparou a falar como uma metralhadora, acusando Mary Jane de envenenar sua cabeça, que não queria estar lá, que não duvidava dele, que queria ir embora, que estava com sede e calor. Enquanto ela atirava as palavras, o marido foi se aproximando e dando um confere na gata faladeira à sua frente. Passou a mão por sua cintura e disse: "você está muito gata. Que bom que veio." E calou a mulher com um beijo.

Os outros dois seguiram a dica, e logo a paz parecia selada. Parecia, apenas, porque a partir desse dia, ela nunca mais seria encontrada no "esquenta". 

A pragmática Mary Jane logo se desvencilhou dos braços de John e começou a anotar o que precisava resolver: cadeira, chapéu - "não, acho que vai ser melhor uma tenda, vai proteger mais" - comida, mesa, talvez um grill, para fazer uma comida na hora, bebidas variadas... Elas teriam que vir ajudar a organizar, e parecia interessante providenciar algumas distrações e trazer as crianças também. 

E assim nasceu o Tailgate. Era para ser só uma cervejinha entre amigos que saíam de casa na hora que queriam, sentavam onde desse e não tinham que se preocupar com mais nada. Depois da intervenção de MJ, as coisas ficaram mais gostosas, é bem verdade, mas ela agora leva uma semana organizando tudo, nos mínimos detalhes, e ele, em vez de encontrar os amigos depois do trabalho na sexta, tem que passar para pegar o carvão, as bebidas e carnes encomendadas e carregar o carro cuidadosamente, respeitando o esquema da mulher para que seja mais fácil descarregar ao chegar no estádio. 

No último jogo, John conseguiu sentar para beber alguma coisa já era praticamente hora do almoço. O rádio tocava uma música romântica, mas tudo que ele conseguia sentir era saudade de sair sem confusão, apenas com Mike e Frank. Estava cansado, sujo de carvão, tinha queimado o dedo, e já nem sabia se queria assistir ao jogo. Mary Jane sentou-se em seu colo, deu um beijo no rosto suado e agradeceu pelo almoço, o hamburger estava perfeito. Sua filhinha menor, toda grudada de algodão doce, brincava feliz fazendo bolhas de sabão. Como mágica, o cansaço e a saudade sumiram. As melhores coisas da vida não são coisas, e nem são fáceis. Refletindo por um momento, pensou que não fazia muito tempo que era ele jogando. Quando piscou, já era seu filho, e quando piscasse de novo, seria seu neto. E quando fosse o neto, tudo que ele ia querer é ter força para o Tailgate.

Olhando ao redor, viu a toalha colorida, os pratos combinando, os coolers organizados e a comida em vasilhas muito bonitas. Sentiu o cheiro da comida, o gelado da bebida e o calor do abraço da mulher. Se não dava para ser simples, pelo menor podia se consolar no fato de que era muito bom. 

Se aproximando de Mike e Frank, compartilhou seus pensamentos, e os dois estavam com o mesmo sentimento. As mulheres são bem doidas, dão um trabalho danado, mas se não fossem elas, os maridos estariam com as carecas manchadas e as costas tortas. Talvez estivessem mais magros, mas quem conta calorias em dia de jogo? 

E foi assim que nasceu o Tailgate, basicamente uma mulher invadindo o espaço dos homens e fazendo o que sabe fazer de melhor: complicar tudo, mas deixar muito mais especial.


Esse é o kit Tailgate basicão.

P.S.: essa história é baseada nos fatos reais da minha mente... qualquer semelhança com o que de fato aconteceu é mera coincidência. 



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