Dar à luz ou dar à escuridão?
Dar à luz. Acho tão linda essa expressão! Não a conheço em outra língua, me parece ser outro encanto do nosso idioma, da mesma forma que "saudade".
Palavras são imagens, e o que vejo quando ouço "dar à luz"? Imagino uma mulher dando um presente à vida, ao mundo. O ato de dar à luz é o momento mais divino da vida de uma mulher. Não importa se é um parto normal, natural ou cesáreo, nem mesmo se a mãe está consciente. Também não faz diferença se a mãe desejou ou não aquele bebê, se ele foi planejado ou acidente. Nem o fato da mãe não querer ou mesmo ter repulsa àquela criança anula a força do "dar à luz". Que maior presente um ser humano pode dar a outro, senão a chance de viver?
Nenhuma mulher volta igual depois de um parto. O parto é lugar de morte e vida para a mulher. Não sou psicóloga, mas penso que a depressão pós parto poderia estar ligada ao luto pela mulher que morreu quando pariu.
Independente do resultado de um trabalho de parto, nós morremos. E nascemos. É um momento muito delicado e belo, intenso e dramático. As pragmáticas talvez leiam isso e achem exagero, mas deixe seu pragmatismo de lado por um instante e se conecte com seu(s) parto(s). Vai perceber que viveu, ou ainda vive, toda essa intensidade enquanto gesta e materna sua cria.
Nosso instinto materno é isso mesmo: um instinto. Um corpo que se prepara sem nossa autorização para gerar e criar. Podemos nos engajar ou não nessa preparação, mas ela acontece mesmo que lutemos contra, que nos neguemos o direito de satisfazer nossas necessidades essenciais. Nosso corpo e nossa mente se preparam não apenas para dar espaço a outra pessoa, mas para fazer o que for necessário para proteger e alimentar essa nova vida.
É por isso que a dor da perda de um bebê independe da idade gestacional, independe até se a gravidez foi descoberta somente ao perdê-la.
Percebi, com muita surpresa, que o luto é um sentimento fortíssimo no "dar à luz". Talvez a gente não consiga ter esse entendimento porque ele se mistura à imensa alegria que o filho traz. E não apenas alegria, mas também trabalho, demanda. A criança nos leva a atravessar esse luto de uma maneira ou de outra, ao provocar nosso instinto de proteção e provisão. É por isso que gememos nas noites em claro e derretemos quando sequer imaginamos que estão sorrindo para nós. Só quem já viu um bebê dormindo em paz, alimentado e limpo depois de uma noite em claro e sentiu aquele amor que dói nos ossos pode entender essa insanidade.
E quando damos à luz alguém sem vida? O corpo e a mente anseiam desesperadamente por cuidar da cria, proteger, alimentar, agasalhar, mas não há ninguém que dê vazão a essa necessidade. Há uma ligação eterna, cósmica, mas nenhum corpo que personifique tal ligação, somente o silêncio e o imenso vazio. É o luto pela morte da mulher sem o consolo da vida da criança. É a falta de um lugar para o rio da vida possa correr. São, então, dois lutos se acumulando.
É completamente insano e incoerente esse movimento em prol da legalização do aborto. Quando vejo garotas nas ruas defendendo o aborto, gostaria de ter uma máquina do tempo para levá-las a um encontro com elas mesmas depois do ato consumado. A dor de ser a vítima e a algoz ao mesmo tempo. Viver o luto involuntário da geradora de vida e a culpa da assassina. A mesma pessoa sofrendo por ter perdido e por ter matado.
Vou contar a história verdadeira de quando me proporcionaram um tour da morte. Nunca mais fui a mesma depois disso. Omiti o local e alterei o nome, mas os fatos são cruelmente verídicos.
Uma amiga em comum me apresentou à chefe da enfermaria obstétrica de um hospital do SUS, e me pediu para marcar um dia para fazer o "tour do aborto". Ela ia me mostrar o caminho de uma mulher que decide pela interrupção da gestação. Pelo que entendi, isso acontece em hospitais específicos, não é em qualquer lugar.
Era uma manhã quente e ensolarada quando ela me buscou na entrada do hospital e me encaminhou a uma sala. Fechou a porta, e começamos o tour que me transformaria para sempre. Aquela sala, me contou Joana, era onde as grávidas que diziam que a gestação era fruto de violência se encontravam com uma "conselheira". A mulher não era obrigada a ter feito um boletim de ocorrência e não precisava apresentar qualquer prova do abuso, nem sequer identificar o abusador. Ali ela era acolhida e apresentada a três opções: interromper, dar para adoção ou ficar com a criança. Não vi estatísticas ou manual de procedimentos, mas ela afirmou que havia uma forte tendência a convencer a mãe pela interrupção.
Saímos da sala em direção ao local para onde a grávida é encaminhada para interromper a gestação. Fomos passando por quartos cheios de mães amamentando, bebês chorando, cheirinho de fraldinha e leite. Eu, que já não queria mais ter filhos, senti meu útero pulando. Me coloquei no lugar da paciente indo abortar. Aqueles sons e cheiros eram perturbadores.
Chegamos a uma sala de espera e ela me mostrou a porta do centro obstétrico, onde era injetado o cloreto de potássio no bebê e a sala de pré parto, onde ficam as mulheres em trabalho de parto. Ainda que de um bebê morto, essa mulher agora também está em trabalho de parto, pode inclusive receber doses de ocitocina para acelerar o processo. Quando olhei pela porta, vi mulheres em todo estágio de trabalho de parto, uma sala cheia de vida em estado puro, primitivo e selvagem. A mãe do bebê que está morrendo fica ali até suas dores começarem também. Fiquei me imaginando perdendo o bebê dentro de mim enquanto as outras à minha volta estavam no auge da vida e fui invadida por uma tristeza silenciosa, uma dor profunda que me deixou calada por muitos dias. Aquela mãe voltaria ao centro cirúrgico para expulsar o feto morto, muito provavelmente fazer uma curetagem, e sairia pela porta do hospital carregando a sombra da morte.
Depois disso, Joana me levou aos fundos do hospital e me colocou diante de uma porta muito bem fechada. Os fetos mortos eram todos levados para lá, e ninguém sabia ao certo o que era feito deles. Fiquei parada diante daquela porta e não conseguia segurar minhas lágrimas. Era uma porta, mas era um cemitério. Não o cemitério de uma pessoa, mas de muitas gerações. Linhagens que não se estabeleceram na terra. O memorial do egoísmo e do engano, poço de morte e dor sem fim.
A minha alma se rasgou naquele lugar por aquelas crianças assassinadas e mães destruídas. Fui embora descontrolada, acabada, sentindo na pele a dor daquela mulher que chegou ali desesperada, procurando um remédio para o seu problema e foi embora morta. Perder um filho é uma morte. Perder um filho voluntariamente e ser colocada para esperar a expulsão do morto em meio às que estão dando à luz é inimaginável.
Devo dizer que até esse dia, eu era ok com a interrupção em caso de estupro. Hoje, devo dizer que compreendo, mas não sou a favor. Por mais que a mulher seja torturada por aquela gestação por 9 longos e intermináveis meses, dar a criança para adoção vai evitar que ela viva a dor de ativamente acabar com uma vida somada à dor da violência sofrida.
Também devo dizer que se sou 100, 200% contra o aborto em qualquer circunstância, mas independente disso me preocupo com as mulheres e homens que tiveram essa experiência. Jamais levantarei um dedo acusador a essas mulheres, elas são seus piores algozes, elas morreram com seus filhos, mas terão que continuar aqui e conviver com o fato de que mataram. Sou capaz de compreender uma mulher que se decide por não carregar o descendente de um estupro, mas talvez ela não consiga entender o que vem depois, o fato de que à dor da violência será acrescentado o luto e a culpa. Me apresento aqui como braços para acolher essa mulher mortalmente ferida.
Precisamos reverenciar a vida, toda vida, como presente Dele. Mesmo que venha do horror e do sofrimento, toda vida é um presente. Talvez aquela mãe violentada seja o útero que trará vida a outra família, e isso é muito belo, mesmo em meio ao horror!
Há decretos universais, transcendentais, cósmicos e eternos, e esse é um deles: fomos criados para dar nossos filhos à luz da vida, e não à escuridão da morte.
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