A vida é loka, mano, a vida é loka!
A mãe e 4 filhas saíram em aventura pelo mundo. Londres, Cotswolds, Paris e Vale do Loire eram o destino. Mas elas, na verdade, não imaginavam o que o destino tinha para elas.
Chegaram a Londres cheias de gás. Visitaram o Hyde Park, o Palácio de Kensington, a London Eye e arrumaram treta no jantar. Quer dizer, arrumaram treta com elas. Uma família sentou-se ao lado da mãe, que comia tranquilamente. O pai da tal família estava vestido dos pés à cabeça com roupas de péssima qualidade escritas Versace em letras garrafais, provavelmente comprada num shopping pirata qualquer. A mãe vestia uma saia rosa questionável, parte de cima colorida e tênis branco.
Pois bem, a senhora mãe derramou molho vermelho no chão, que respingou no tênis e na saia da outra mãe. Formou-se a confusão, pois de acordo com o pai, tal maravilha de tênis custara 6.000 dólares. Foi um belo barraco da parte deles, com a mulher limpando dramaticamente o tênis que já estava limpo há meia hora enquanto fuzilava a senhora mãe com o olhar, enquanto o Versace queria que o restaurante reembolsasse o prejuízo e, por fim, anotando a placa do Uber das moças, que choravam de rir imaginando o que ele pretendia. Só ficaram com medo dele ser mafioso e mandar alguns mafiosos atrás delas.
O dia seguinte começou com verdadeira peregrinação pelo metrô até o local da Igreja Metodista fundada por John Wesley. No caminho, divertiram (ou enlouqueceram) o morador de rua que viu as 5 mulheres passarem por ele umas 5 vezes, com cadeira de rodas e tudo, confundidas pelo GPS. Talvez ele estivesse pedindo a Deus um sinal, e elas fossem o sinal...
Acharam a capela, visitaram, almoçaram ali perto e seguiram para o próximo evento: Evensong, a missa cantada na Abadia de Westminster. Nessa viagem, as 5 mulheres foram totalmente brasileiras: chegaram atrasadas a TODOS os seus compromissos. Quase não conseguiram entrar na Abadia, mas acabaram conseguindo e assistiram, encantadas, o coral e o sermão, sobre o Dia do Senhor. De acordo com o bispo que pregou o Dia do Senhor muitas vezes é compreendido como o dia final, mas ele é, na verdade, o dia final de algo e o primeiro dia de outra coisa. O fim e o começo se dão no Dia do Senhor. Foi algo assim. Além da beleza das músicas e das palavras, a Abadia é de uma beleza ímpar, e tem uma atmosfera igualmente singular.
Depois da cerimônia, um dos bispos estava à porta e conversou com o grupo, e alguém perguntou se ele faria uma oração por elas. Então, o mesmo bispo que há poucos dias participara da coroação do Rei Charles III orou por aquelas mulheres brasileiras, por suas famílias individuais e sua família como um todo, terminando da seguinte maneira: "quando vierem as nuvens negras, lembrem-se desse momento e dessa oração do Bispo Ralph". Foi um momento tão cheio da presença de Deus que após o "amém" cada uma procurou um cantinho para enxugar as lágrimas. Já haviam passado nuvens negras juntas antes, e começaram a se preparar para as próximas, imaginando que estariam ainda mais na frente. Para elas, naquele momento, o sol brilhava em todo o seu esplendor, sem possibilidade de chuva.
O dia continuou com uma caminhada pela Whitehall, até o Parque St. James, onde celebraram a viagem e provaram Fish and Chips, depois até Buckingham e de volta ao hotel. Que parque encantador, que dia lindo e ensolarado. E o Big Ben e o Parlamento? Que maravilhas!
O terceiro dia foi a continuação do sonho, com céu sem nuvens e passeios deslumbrantes. Terminaram o dia na Harrod's, onde a mãe realizou um de seus desejos de longa data: comprou uma torta de rim para provar, apesar dos narizes torcidos das filhas. Desde jovem, lia em seus romances sobre a torta de rim, e tinha muita curiosidade de provar. Comprovou o que todas imaginavam: era muito ruim. Deu duas mordidas, e foi isso. Arrumaram suas malas e foram descansar, pois na manhã seguinte começaria uma nova etapa: pegariam o carro alugado para ir ao interior, à região conhecida como Cotswolds.
Mas a vida acontece. Uma tosse estranha na madrugada acendeu um alerta. Às 6 da manhã, o seguro foi chamado, por precaução. Foi marcada uma consulta para o meio dia. Depois daquela única tosse, parecia não haver mais nada. Mas nuvens se aproximaram em velocidade de furacão, e a tempestade chegou sem qualquer cerimônia. Em três horas, as nuvens se tornaram tão espessas que não se via um palmo à frente do nariz. O dia que começara com a expectativa de um passeio encantador se transformou na luta pela vida num quarto de ressuscitação. 16 horas num quarto de ressuscitação.
Todas se lembraram da oração do Bispo Ralph, e isso as manteve de pé. A filha que ficou com ela no hospital assistia a tudo sem conseguir processar. Autorizou os procedimentos que fossem necessários, concordou que não seria feita ressuscitação caso houvesse parada cardíaca, e simplesmente esperou. Deu notícias, mas nem ela mesma sabia direito quais eram. Chorou, mas rapidamente entrou em piloto automático. Resolveu tudo que era necessário e passou a noite ali, caminhando ao redor da cama, orando, massageando os pés da mãe, declarando vida, e por fim, quando tudo se estabilizou um pouco, dormiu durante uma hora na cadeira de plástico que encaixou entre uma bancada e a parede para não cair.
O olho do furacão. O olho do furacão é o buraco no meio daquele cone formado de nuvens negras. Dizem que ali o silêncio e a calma são absolutos. Estavam no olho do furacão. Olhando para a mãe deitada de cabeça para baixo, a filha sentia calma e silêncio absolutos. Tinha alguém trabalhando ali que não deveria ser perturbado. Calma e silêncio. Somente os bipes dos aparelhos, que pareciam sons distantes e já nem assustavam mais. O olho do furacão passou depois de 48 horas, quando um médico disse: "a senhora nos preocupou bastante, mas agora já está fora de perigo".
Aquelas palavras foram a permissão para que o furacão se movesse, engolindo novamente a tudo e todos. Quem fica em Londres, quem continua a viagem. Tantas alterações a fazer... Água no pulmão. Pneumonia. Ansiedade. Dúvidas. Mas a filha que ficara ainda estava no olho do furacão, como se nada estivesse se movendo ao seu redor. Levantava ao primeiro raio de sol, escovava os dentes, fazia seu café e saía. Todos os dias, ao passar pela recepção do hotel, ouvia pelo menos duas ou três pessoas perguntarem se estava tudo bem com ela. Parava no mercado para levar alguma coisa gostosa que a mãe pudesse querer comer e tentava comer algo antes de entrar no hospital.
Foram 10 dias. Na metade deles, o único filho veio ao socorro da mãe e da irmã. Aos poucos, os ventos foram diminuindo, as nuvens começaram a se dissipar e era possível até uma certa diversão. A transferência para a "Elderly Nursery", que foi traduzida para "Berçário de Velhinhas", marcou o início da recuperação. Seja porque começou um trabalho de preparação para voltar para casa ou porque as velhinhas eram verdadeiras malucas que aterrorizavam as noites, o fato é que o lugar acelerou a melhora. O furacão perdia força dia após dia.
Então, assim como veio, passou. Numa manhã de quinta-feira aconteceu a visita do médico sênior, que declarou não haver qualquer explicação para o que a levou ao hospital, mas que se não fosse aquilo, a pneumonia que a manteve lá poderia não ter sido descoberta a tempo de ser tratável. Se a mobilidade reduzida dela não fosse um empecilho, da parte dele não havia mais nada a ser feito. Ela poderia ter alta. A dificuldade da mobilidade era devida aos 10 quilos que a mãe ganhou pela quantidade de soro que recebeu ao ser ressuscitada, mas os filhos declararam que aquilo não era problema para eles, e a alta veio.
Em pouco mais de 2 horas estavam dentro de um táxi que levou os três à estação de trem, onde ainda ganharam um upgrade, e logo estavam em Paris, reunidos com as outras viajantes e mais quatro netas. Foram mais 4 dias de uma viagem perfeita.
Essa viagem ficou marcada pela força da vida, pela rapidez com que as nuvens chegaram e a doçura como foram empurradas para longe. No meio da ventania e do caos havia uma capacidade de rir, de respirar e de somente esperar. Não foi fácil nem leve. A tempestade deixou seu rastro de destruição mas a vitória da vida foi inquestionável.
Para quem não tem fé, pode parecer que há exagero ou que não foi bem assim. Mas quem viveu experimentou forças desconhecidas até então, tanto de vida quanto de morte; percebeu que elas se entrelaçam e dançam juntas, até que o Criador dê sua palavra final.
De acordo com o cardiologista da mãe, depois de ler o relatório do hospital e ouvir o relato pessoal, ela não deveria estar viva. Uma pessoa mais nova, sem insuficiência renal ou cardíaca e Parkinson já teria corrido um seríssimo risco de vida; ela então... Deus colocou os anjos dele no lugar e na hora certa. Na portaria do hotel, dentro do táxi, na emergência, na sala de ressuscitação. Anjos que atravessaram as nuvens negras como se fossem o sol do meio dia. Não titubearam, não piscaram.
O Deus que não dorme e nem cochila estava no controle dos segundos, dos passos e dos procedimentos. O que a família testemunhou foi uma chuva de graça, bondade e misericórdia. Houve muito medo e ansiedade, sim, porque são todos humanos. Mas as nuvens negras tinham sido anunciadas, e no fundo todos sabiam que iam passar. Só não se esperava que trouxessem em sua escuridão, vida em seu estado mais selvagem e incontrolável.
A vida é uma coisa inexplicável. Só nos resta...VIVER!


Que bênção é viver! Emocionante sua história ❤️
ResponderExcluiré uma bênção mesmo! Obrigada pelo carinho.
ExcluirFiquei mais uma vez arrepiada com esse testemunho, Cla! Deus é realmente bom o tempo todo!
ResponderExcluirO tempo todo e mais um pouco, né? Beijos!!!!
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