Reimaginar-se

 

Esse deveria ter sido o primeiro post do blog, mas o Tailgate estava batendo muito forte, teve que sair primeiro.

Nem sei se esse termo - reimaginar - existe, mas se não, deveria, porque é muito bom. Olhe bem para as duas fotos abaixo. A da direita é de fevereiro/22 e a da esquerda, agosto/23. O que as separa é um processo de reimaginação.


É a mesma pessoa? Em alguns aspectos, sim, mas em inúmeros outros, certamente não. E a aparência é apenas o resultado disso. Quando foi formado o grupo Colorindo o Mundo, de onde brotou Giovanna Hart, minha heroína de 10 anos, se alguém me contasse o que aconteceria comigo, ouviria uma risada. E o que desencadeou tanta mudança? Uma pergunta simples: "e se?"

Crianças, as minhas e as dos outros, sempre definiram meus caminhos nesse mundo. Elas são meu ar, meu refúgio, meu amor, minha inspiração. Eu sem elas, morro. E foi no meio da pandemia, trabalhando na Secretaria Nacional da Criança e do Adolescente e acompanhando ao vivo o que acontecia Brasil afora com as crianças e vendo as redes sociais extirpando sua inocência que comecei a gerar Giovanna e Gabriel (ele terá seus próprios livros depois de Giovanna). Foi na dor que presenciei por muitos dias e noites que gerei a meninas mais leve que poderia haver. Ela está ali, enjaulada em suas dores, massacrada pela comparação, e de repente está livre, tanto física como mentalmente, e tem a oportunidade de viver como alguém que só tem 10 anos. Busquei essa garota nos meus 10 anos, nas minhas filhas, na minha mãe, nas minhas irmãs, sobrinhas, filhas do coração, busquei Giovanna na humanidade. Nas histórias que vivi pastoreando, imersa em projetos sociais e sentada atrás de um computador desenvolvendo ações de proteção às crianças. Essa garota foi formada no ventre da minha dor, da minha fé, esperança e amor. 

Ela veio tão forte e poderosa que não pude fugir à pergunta: "e se?" 

E se ela for um sucesso?

E se ela der certo?

E se ela crescer?

E se ela voar?

E se eu não estiver preparada?

Bom, se eu não estiver preparada, nenhum outro "e se" terá como se concretizar, e a verdade é que eu estava zero preparada. Como alguém que volta aos escombros depois de um terremoto catastrófico, sabia que era hora de me reconstruir, mas não sabia nem por onde começar. Ali estava eu, diante dos escombros, tentando bolar uma reconstrução.

Então tive um insight: "ok, preciso me preparar. Se Giovanna acontecer, preciso estar pronta. Preciso me reconstruir, voltar ao lugar onde estava. Mas e se eu não voltar para lá?"

E essa é uma das belezas de andar com Deus. A fé não nos torna apenas resilientes, porque o objeto resiliente retorna à forma original depois que sofre a pressão. Quem anda com Deus não volta ao que era antes - a não ser que queira -, mas a pressão nos lança de volta muito acima e além do que jamais estivemos. 

Existe uma imensa oportunidade escondida na destruição: podemos reconstruir, ou podemos reimaginar. Como uma cidade em ruínas, podemos ir atrás das plantas originais e refazer, com algumas melhorias para que não volte a cair, ou podemos simplesmente reimaginar, recriar, sem se prender a nada, implementando as novas técnicas aprendidas para fazer algo totalmente novo. 

Sim, já tive uma vida muito legal, mas agora quero outra. Assumi a postura de quem tem 15 anos de idade e não sabe nada do futuro, apenas visualiza como será sua vida adulta, sem se prender muito à realidade. Eu imaginava muita coisa, naquela época, até como seria meu cabelo e como seria o dos meus filhos. Aconteceu? Muita coisa não e muita coisa sim. Agora, aos 50, decidi fazer a mesma coisa. Se vou me preparar, vou me preparar para ser o que? 

Ao me reimaginar, me vejo livre, intensa, leve. Um canal e não um poço. Lugar de vida, não de morte. De ganhos e não de perdas. Meu caminho é de possibilidades diversas, não de dualidade. Tenho uma cláusula pétrea em minha vida, e essa é o que Jesus disse: Ele é O caminho,  A verdade e A vida, e ninguém vai ao Pai senão por Ele. Esse é o decreto imutável para a minha vida, tudo o mais são possibilidades. Não é porque gosto de branco que não gosto de preto, ou porque gosto de coxinha de jaca que não gosto de churrasco. Também não preciso definir entre montanha ou mar  e nem trilha selvagem ou resort de luxo, ou entre tênis e salto alto, e assim vai. Muito menos preciso decidir minha carreira aos 18 anos e ficar nela para sempre. Tudo tem muitos caminhos, e temos liberdade de andar por eles ao nosso bel prazer, sempre conscientes de que toda escolha tem consequências.

Com tudo isso na cabeça, dei asas à reimaginação, independente de estar dentro ou fora da minha zona de conforto, das minhas possibilidades orçamentárias, ou até mesmo de ser possível ou não. Essa Clarice que gerei em minha cabeça precisa nascer, estou parindo. Qual é o meu papel nesse trabalho de parto?

Em primeiro lugar, remover os escombros. Um rio nasce pequeno, e quanto mais corre, mais cresce. A vida também. Quando mais "escombros" no leito do rio da vida, mais complicado é o percurso, e mais tempo leva para que ele cresça. Então, decidi tirar os escombros mentais e emocionais, e essa é uma tarefa intrigante, porque eles estão em toda parte, bloqueiam coisas inimagináveis. Do crescimento do cabelo ao funcionamento dos rins, da sua capacidade de ler e interpretar um texto até à de construir sua independência financeira. 

É como se muita água viesse descendo e, entrando no meu espaço, encontrasse praticamente uma barragem, de tanto escombro caído. A água vai se infiltrando, pressionando, e quanto mais "encurralada" fica, mais alto ruge. A água não retrocede, ela é invencível. Vai ficando barrenta, suja, barulhenta e ameaçadora. A vida quer passar, e vai passar. Ao decidir ser leve, livre e intensa me comprometi em tirar o entulho, pedacinho por pedacinho.

A remoção desse lixo é um processo longo, doloroso e complicado, e a vida não para de acontecer, aumentando em vários graus o desafio. No último ano vivi momentos surreais tanto positivos como negativos. Vivi luto, EPT, alegria imensurável, contemplação, descanso, exaustão, uma coisa atropelando a outra, sem intervalo. Tem uma expressão em inglês que gosto muito: "feeling all the feels" - sentindo todos os sentimentos - e é perfeita para o meu momento. 

Desde a foto da direita passei a dar passos intencionais, intencionalíssimos, trabalhando no que imaginei. Cuidei da mente, do corpo e do espírito. Estou aprendendo a ser mais gentil comigo. Deixei o cabelo crescer, cuidei da pele, como direito, malho, leio, trabalho, estudo, não paro. 

Talvez a coisa mais difícil até aqui tenha sido me assumir escritora, e faço isso num exercício intencional. Ao ser perguntada sobre o que faço, não digo que trabalhei com turismo, ou na SNDCA mas no momento estou escrevendo. Digo objetivamente: sou escritora.  Ao fazer isso sinto um peso absurdo. E se as pessoas não gostarem do que escrevo? 

Se isso não era importante antes, agora é. Até iniciar esse processo, pouco me importava se alguém gostasse, ou sequer se alguém ia ler meu blog, Instagram ou o que quer que fosse, pois estava apenas colocando pensamentos no papel. Agora é diferente, a parada ficou séria. Se eu não encontrar leitores que amem meus escritos, minha nova carreira está sumariamente fadada ao fracasso. Para dificultar um pouco, senão não tem graça, escrevo ficção. Não há nem aquela coisa da não ficção, onde seu conteúdo sempre encontrará alguém que precisa dele. No meu caso, estou submetendo minhas ideias malucas ao crivo dos leitores! 

Me assumir escritora é me colocar num lugar extremamente vulnerável, com uma linha tênue entre manter a  autenticidade e alcançar leitores. Cada avaliação boa, cada elogio ao meu trabalho vai me dando tração, me ajudando a fundamentar um caminho audacioso, que precisa estar bem feito para quando vierem as críticas ruins e os haters.

Enfim, reimaginar-se é sacudir-se. Nunca quis me colocar nesse lugar tão vulnerável. Assim como tinha prometido a mim mesma que minha vida de empreendedora tinha terminado. Tolinha... Se o dono da escrita não tiver uma alma empreendedora terá que contar com muita sorte para alcançar sucesso na empreitada,  especialmente no gênero da ficção. Portanto cá estou, empreendendo e vulnerável, parindo a Clarice que nasceu em minha imaginação.

Deus nos tornou ilimitados quando disse que tudo podemos quando Ele nos fortalece, e que tudo é possível ao que crê. Podemos nos imaginar, nos criar, e submeter tudo isso a Ele, que só vai incrementar a coisa.

A diferença entre a Clarice de 15 e a de 50, é que tenho muito mais capacidade criativa agora. Misturando com sabedoria de vida, fé, amor e esperança, a Clarice que está nascendo é a de 30 elevada à enésima potência. Quero só ver onde a vida vai parar! Na verdade, não vai parar, certo? 

Se você se olha no espelho e não se reconhece mais, ou não gosta do que e de quem vê, ou acha que ela é uma fracassada, olhe de novo, mas com outros olhos. Ouse se perguntar: "e se?"




Comentários

  1. É um privilegio estar ao seu lado, nesse momento de reconstrução !!! Você é excepcional em tudo o que faz, e tenho certeza que os seus leitores confirmarão isso que sempre soube.

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  2. Muito bem Clarice, parabéns, nasceu uma Giovana,mas já estava a tempos com você

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