Alimento e Informação
Quer saber como funciona uma mente criativa? Hoje vou te mostrar o que uma simples frase de um podcast provocou em mim. A frase era formada de 3 palavras: alimento é informação".
Achei fantástica a explicação dada, e ela ficou rodando na minha cabeça, me fazendo pensar e colocar um complemento: alimento é informação e informação é alimento! Os alimentos que consumimos geram informações ao organismo (inflame aqui, desinflame ali, entupa aqui, desentupa ali...) e a informação que consumimos se transformam em alimento para ideias, pensamentos e emoções, formando a base de nosso comportamento moral, ético e artístico.
Ao entrar num museu, acessamos uma dimensão diferente. O compartilhar do conhecimento e da arte que moldou e molda pessoas e épocas é uma experiência fascinante, e dói meu coração a triste endência brasileira de menosprezar museus, de só enxergar "cama véia" onde a história é tão absurdamente rica. História, arte, visões de mundo, pedaços da humanidade... Do osso de um Neanderthal a uma pedra da Lua, tudo se encontra nos museus.
| Partitura escrita por Ludwig van Beethoven |
Em Detroit é possível visitar o Motown Museum, que conta a história do studio que deu voz e palco a grandes estrelas negras da música americana, de Stevie Wonder a Michael Jackson, e muitos outros depois deles... Imagine entrar numa sala e dar de cara com a luva e o chapéu ORIGINAIS do Michael Jackson, com dedicatória! Para comprovar, tem que ir lá ver, porque é proibido entrar com câmeras ou celulares. Aquele momento e aqueles dois objetos inanimados me trouxeram uma sensação que é difícil descrever. Talvez a melhor maneira seja: me senti parte de um todo, de uma humanidade absurdamente rica, talentosa, criativa, maravilhosa.
Os museus que visitamos, as músicas que ouvimos, os livros que lemos, as viagens que fazemos, as notícias que ouvimos, as paisagens que contemplamos...Tudo isso são informações que se tornam alimento. Dizem por aí que somos o produto dos livros que lemos, das músicas que ouvimos e dos amores que vivemos. Existem muitas variações para esse dizer, e todas são verdade. Somos seres permeáveis que absorvem e processam TODA informação que chega. E o resultado disso... é quem somos.
Há pouco tempo fui passear no Louvre com minha família. Amo me perder naquelas alas, só não posso sair sem me encontrar com a Vitória Alada da Samotrácia e a Vênus de Milo (sorry, Mona). Sentar e contemplar tapeçarias gigantescas, pinturas magistrais, esculturas, fragmentos de vasos gregos, tudo isso me traz um prazer imenso. Na saída, fiz a passagem obrigatória pela lojinha, e encontrei algo que foi um marco na minha infância: a família Barbapapa. Esse desenho não passou por muito tempo aqui, acho que não fez muito sucesso, mas eu simplesmente amava aquela família redondinha em que todo mundo podia mudar de forma como fosse necessário. Foi olhando para a Barbamama que me dei conta de que foram eles que inspiraram os gigantes de Slime que aparecem no livro da Giovanna Hart. Me deu um estalo, e comecei a pensar nas inspirações que resultaram no mundo e na aventura fantástica da menina: a tartaruga que vi numa viagem, o planetário que visitei, o livro "Viagem ao Céu", de Monteiro Lobato, as paisagens que contemplei da janela do carro no Brasil e mundo afora, as comidas que provei.
Tudo isso foi passando diante dos meus olhos como um filme, nos poucos segundos em que eu estava agachada, abraçada a uma boneca inflável que materializava o que tanto imaginei quando era pequena. A criação de alguém inspirou minha criação, sou realmente um produto de tudo que alimenta minha mente!
Quantas pessoas que não não fazem ideia da minha existência, que talvez tenham vivido há milênios, são parte de mim? Certamente, a Laura Ingalls Wilder, cujo livro estou lendo na primeira foto, não podia imaginar como eu amaria sua história e sua família, assim como Cecília Meireles não soube o quanto aqueceu meu coração e nem Marian Keyes quantas risadas dei enquanto lia Melancia.
Agora, incrível mesmo é pensar que quando ponho no papel o produto das informações que me moldaram também me torno parte da cadeia de informação de pessoas que talvez nunca venha a conhecer. Esse pensamento me deixou sem palavras, me sentindo um pontinho, um plâncton no oceano, mas com um sentimento de pertencimento inigualável.
O que seria da humanidade sem o conhecimento transmitido por letras, números e desenhos? Como somos levianos com o aprendizado quando não fazemos que os estudantes tenham reverência e amor pelo conhecimento e pelas expressões artísticas! A cultura de menosprezo pelo passado e falta de paciência com a arte nos apequena: diminui o horizonte, apaga identidades e tira a cor da vida. Como podemos esperar bons produtos de quem não recebe boa informação, ou saúde de quem não se alimenta corretamente?
A humanidade é uma imensa tapeçaria feita de fios que vêm desde o início dos tempos, se entrelaçando, misturando suas cores, crescendo e se multiplicando numa dança sagrada. Não há pré requisitos ou linhas de corte. Todo fio cabe e todo fio se entrelaça. Alguns seguem se multiplicando enquanto outros tem breve participação; e muitas vezes são os mais curtos que marcam uma era com seu brilho e cor extravagantes.
Viu só? Esse devaneio todo aconteceu porque ouvi 3 palavras: "alimento é informação". Espero que tenha gostado dessa "trip" pela minha cabeça!
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