Ângela, Clarice, Alice e o Caminhão de Mudanças
2024 começou com mortes: Angela, Clarice e Alice. Graças a Deus, até o momento nenhuma Amanda.
Alice tinha 10 anos; Clarice era um bebê com 9 semanas de gestação.
E Angela... essa era uma gigante de 89 anos.
Várias faces do luto. Um, o curso natural da vida; outro, uma tragédia; o terceiro, a dolorosíssima seleção natural que nos faz duvidar do amor de Deus.
Tudo isso me traz à lembrança o caminhão de mudanças. Aquele que guiei para fora de um lar destruído em direção a um novo começo. Aquele que apareceu como carro funerário em meu retrovisor quando vi que carregava os restos mortais de sonhos brutalmente assassinados. Os sonhos de uma linda jovem, cheia de vida, traída pelo que pensava ser amor.
Já o carro funerário de Ângela não levava sonhos mortos, levava o que restou de uma vida plena, o memorial dos sonhos realizados.
O carro de Alice tinha as rodas pesadas de tantos sonhos mortos e saudade do que não se chegou a ver.
Clarice não teve sequer um carro funerário, não tinha tamanho para tanto. Mas seu minúsculo e perfeito corpinho se foi, carregando em si todo o peso do que nunca veio a ser.
Sou o cruzamento dessas histórias, Clarice filha de Ângela e mãe de Alice. Talvez a Clarice e a Alice dessa história tenham um pouco de mim e de minha Alice nelas, mas isso não é o mais importante.
O ano começou com morte, e meu único consolo é que o ciclo criado por Deus não é vida-morte, mas vida-morte-vida. Nada que morre permanece morto. Nem mesmo os corpos debaixo da terra. A morte é uma semente que fatalmente floresce, de maneiras que não podemos antever.
A morte de um casamento pode ser um decreto de liberdade; a liberdade de abraçar de novo sua própria e verdadeira identidade, e ver florescer a magnífica obra de arte que foi projetada para ser.
A morte de uma mãe lança seus filhos à vida.
A morte de uma criança leva a mãe junto, mata a mulher e faz nascer a leoa, que mesmo ferida, protege e nutre os que ficaram. A mulher renascida como leoa alcança lugares impensáveis, impossíveis.
A morte de um bebê no ventre também mata, seca até os ossos de tanta dor. Mas ao vale de ossos secos Deus ordena vida.
E onde está Deus, que não impede tudo isso? Sim, a vida acontece, e Ele não impede.
Mas levanta uma família para cercar a jovem e soprar vida nela.
Leva a mãe sem sofrimento e dor, rapidamente, e derrama consolo inexplicável, preenchendo o vazio com abraços e risadas no meio do choro.
Ele está no silêncio e no barulho das lágrimas de Ruth e nas pequenas coisas de seu dia a dia. Ele esteve em cada dia de vitória, em cada amanhecer. Ele se apresenta nos braços dos irmãos de fé.
Ele também abraça Lívia, dá energia aos seus filhos para obrigá-la a se levantar e seguir. Ele está nos passinhos que correm pela casa demandando atenção.
Ele tem sempre uma maneira de nos empurrar de volta ao fluxo da vida, e nunca é como a gente imagina.
No ciclo vida-morte-vida é raro conseguirmos ver a transição da morte para a vida, de tão combalidos que estamos.
Mas em um dia qualquer, em volta de uma mesa, a gente percebe as vidas refeitas, os frutos nascendo, e olha para dentro. Há cicatrizes, mas há muita alegria. Porque Deus faz sempre mais do que pedimos ou pensamos, especialmente quando se trata de vida.
A todos que estão vivendo a morte, o luto, essas palavras são para nós: isso também vai passar. Atente-se para não perder a beleza de tudo que vai nascer em todas as áreas da sua vida.
Há tempo para todo propósito debaixo do céu, e felizes são os que choram, porque serão consolados. O dia vem. A vida vem. E vai ser linda. Vai ser plena. Vai fazer todo sentido.
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