O tempo e a dor
Há um mês a vida como a conhecia via a luz do dia pela última vez.
Desde então o sol ficou diferente e o tempo se tornou um estranho.
Estranha, na verdade, sou eu, que não consigo me decidir se quero que ele pare ou corra.
Bom, eis aí uma discussão que não poderia ser mais inútil, porque o tempo não está nem aí para o que quero ou deixo de querer.
No filme Collateral Beauty, com Wil Smith, em uma das conversas com o Tempo, esse diz: "o tempo é um presente". De fato, o tempo é um presente. Tanto é um presente no sentido de dádiva como no próprio sentido de tempo. A única parte tangível do tempo é o presente, que é um presente.
Minha mãe foi agraciada com tempo. Ela pediu a Deus para me ver fazer 15 anos, e me viu fazer 51. Engraçadinho, Deus... apenas trocou as velinhas de lugar. Pediu para não morrer em Londres e viveu mais 9 meses para gerar vida em todos nós.
Houve tempo para tudo.
Houve tempo para nada. Quantas vezes ela veio fazer nada em minha casa enquanto eu trabalhava! Bom, fazer tanto nada quanto ela era capaz. Geralmente o nada incluía um bordado, um sudoku ou arrumar minha gaveta de fitas.
Agora, o tempo passa e vai nos distanciando de sua presença física. Sua presença emocional, no entanto, é mais forte do que nunca. Ela está em tudo. No me perder e me achar. Se num momento me sinto perdida, sem âncora, no próximo sei o que ela faria e diria. A âncora física se foi, é fato, mas continua cravada dentro de mim.
E há a dor.
Essa não depende das minhas crenças, de estar achada ou perdida, em Brasília ou no Vietnam, e tem uma profundidade que eu não sabia que podia existir. Ela também não depende de que eu esteja chorando. Para ela, indifere. Salomão, o mais sábio de todos, disse: até no riso tem dor o coração. Pobre coração.
Uma das ideias mais acalentadoras da eternidade com Cristo é o fim de toda dor. Como será não ter dores? Não me lembro. Há quanto tempo todos nós, eu e você que lê, carregamos as mais diversas dores?
A promessa do fim da dor é maravilhosa.
Como será uma alma sem dores? Haverá coisa mais leve do que isso? Me considero uma pessoa leve, e fico tentando imaginar como seria se nada doesse. Se não posso ainda me ver livre desse flagelo, tenho o imenso consolo de saber que não estou só.
Além de me oferecer salvação, Deus me consola, me ajuda a processar as dores e caminha comigo ao longo do processo de cura, até que restem apenas as cicatrizes, as belas marcas da vida, a prova de uma vida que sente, que se envolve, que é ferida por e pelo amor. O amor fere, e ele mesmo cura.
Deus fez a ferida e a sarará, nos revigorará e viveremos diante dele (Oseias 6:1)
O tempo passa, a dor corrói, mas o Deus das estrelas está aqui, do meu lado, e não vai me deixar. Não vai deixar ninguém.
Comentários
Postar um comentário